ECLAT – Processos que controlam a dinâmica ambiental e os impactos societais dos contaminantes geogênicos e antropogênicos de metais traço na Guiana Francesa

Projeto financiado no âmbito da chamada genérica 2023 da ANR (Agência Nacional de Pesquisa da França), coordenado por Cécile Gautheron, pesquisadora do Institut des Sciences de la Terre (ISTerre – Université Grenoble-Alpes / CNRS).

Resumo do projeto

Na Guiana Francesa (GF), a exposição das populações que vivem ao longo dos rios e das zonas costeiras a metais traço e metaloides (MT) é uma preocupação central para os órgãos de saúde pública. No entanto, a origem dessas exposições ainda é mal compreendida.
Os níveis elevados de MT potencialmente tóxicos (como Hg, Pb e As) presentes nas coberturas lateríticas (laterita e solo) resultam de um acúmulo natural ao longo de milhões de anos. Esse equilíbrio é atualmente perturbado, por um lado, pela forçante climática (deslizamentos de terra, tempestades tropicais etc.) e, principalmente, pelas atividades antropogênicas, com destaque para a garimpagem legal ou ilegal de ouro. A gestão das poluições decorrentes — especialmente pelo mercúrio — representa um desafio significativo para o território.
A remanejamento e erosão — naturais ou não — das coberturas lateríticas favorecem a transferência de partículas ricas em MT para os hidrossistemas guianenses. Uma vez nos ecossistemas aquáticos, os MT sofrem transformações biogeoquímicas que podem alterar sua especiação para formas tóxicas e/ou bioacumuláveis nas cadeias tróficas. Além disso, a adição de MT (como Pb e Hg) provenientes de atividades antropogênicas (garimpagem, agricultura, caça etc.) a um fundo geoquímico naturalmente elevado agrava os riscos de exposição das populações.

O projeto ECLAT reúne 6 laboratórios e universidades da Guiana Francesa e da França hexagonal para documentar os ciclos biogeoquímicos dos metais traço, e fornecer respostas societais e de saúde pública a esta problemática na Guiana Francesa. Por meio de uma abordagem transdisciplinar (geociências e ciências humanas e sociais), o projeto se dedicará a compreender os processos de acumulação, transferência e o destino dos metais traço, desde as coberturas lateríticas até os grandes rios guianenses.
O projeto será realizado em dois hidrossistemas: o Maroni e a Mana, contrastados por suas vazões e pela qualidade de suas águas, devido a uma densidade populacional e atividades de extração aurífera muito diferentes em suas margens.
Em primeiro lugar, a dinâmica socioambiental e econômica (garimpagem, ocupação do território, etc.) das duas bacias hidrográficas será analisada com base em arquivos históricos. Esses resultados permitirão avaliar, reconstruir e comparar a evolução espaço-temporal dos fluxos de metais traço e da pressão antrópica ao longo dos últimos dois séculos.
Paralelamente, o estudo mineralógico, geoquímico e geocronológico das coberturas lateríticas atuais permitirá caracterizar os processos e a dinâmica de acumulação dos metais traço geogênicos e antrópicos em escalas de tempo que vão do século ao milhão de anos.
Finalmente, a reatividade das fases portadoras minerais e/ou orgânicas dos metais traço (uma vez remobilizadas nos hidrossistemas) será estudada durante o transporte em suspensão e ao longo dos depósitos transitórios (da cheia à escala sazonal) para documentar o percurso e o destino desses contaminantes.
A utilização de metodologias inovadoras (em campo e em laboratório), temáticas e ferramentas de ponta variadas e complementares (mineralogia, geocronologia e geoquímica elementar e isotópica) permitirá a identificação das fontes e a caracterização dos processos biogeoquímicos envolvidos na dinâmica dos metais traço.
Este projeto trará uma nova visão desse socioecossistema complexo e respostas à sociedade sobre os riscos de exposição aos metais traço. A disseminação do conhecimento (workshops, ensino, divulgação e vulgarização) para a Universidade da Guiana, agências estatais e o público em geral permitirá que a população guianense tenha acesso a informações qualitativas e quantitativas sobre o impacto das minas (leais ou ilegais) e sobre a exposição das populações ao longo do tempo.
O projeto ECLAT permitirá, portanto, propor uma melhor gestão do meio ambiente e da saúde humana, além de aumentar o desenvolvimento da educação sobre esta problemática.

Parceiros

  • ISTERRE Institut des Sciences de la Terre
  • GEOPS Géosciences Paris-Saclay
    IPREM INSTITUT DES SCIENCES ANALYTIQUES ET DE PHYSICO-CHIMIE POUR L’ENVIRONNEMENT ET LES MATERIAUX
    ESPACE-DEV Observation spatiale, modèle et science impliquée (ex-ESPACE pour le DEVeloppement)
    IMPMC Institut de Minéralogie, de Physique des Matériaux et de Cosmochimie
    PRODIG Pôle de recherche pour l’organisation et la diffusion de l’information géographique
  • IRL2034 Mundos em transição CNRS/Université de São Paulo

Participação do IRL2034

Em coordenação com a UMR PRODIG, François-Michel Le Tourneau lidera os trabalhos sobre a geohistória mineira das bacias hidrográficas estudadas e garante a articulação com os grupos de pesquisa brasileiros que trabalham nas questões relacionadas à poluição por mercúrio nos cursos d’água amazônicos.